O crédito digital levou cartões e empréstimos a milhões de brasileiros, em especial aos de renda mais baixa. Só que a facilidade teve um preço: muita gente ficou exposta a juros altos e a dívidas maiores do que consegue pagar. O assunto já mobiliza o Banco Central e o governo, e entrou no debate econômico e político do país.
Crédito digital: mais acesso, mais risco
Fintechs e bancos digitais simplificaram a contratação e trouxeram para o sistema financeiro pessoas que antes ficavam de fora. O lado negativo é que esse público, mais vulnerável, passou a ter contato com linhas de crédito caras e com pouca proteção.
Os números mostram a dimensão do problema. Levantamentos recentes apontam que 82% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida e que cerca de um terço já está com pagamentos atrasados.
Quando o limite sobe mais rápido que a renda
Um caso relatado na imprensa ilustra o cenário. Uma moradora de Salvador, com renda próxima de um salário mínimo, viu o limite do cartão aumentar em pouco tempo e acumulou uma dívida muito acima do que podia pagar. Hoje, boa parte do salário vai para parcelas e encargos, e ela precisou voltar a morar com a mãe.
Os juros não caíram com os bancos digitais
Para especialistas, a chegada dos bancos digitais não reduziu o custo do crédito para o consumidor. Em vez de competir principalmente por preço, muitas empresas passaram a atrair clientes com liberação rápida, análise simplificada e pouca exigência de comprovação de renda. O resultado foi uma expansão acelerada, acompanhada de maior fragilidade financeira para parte da clientela.
O ponto mais crítico é o cartão. Os juros do rotativo no Brasil estão entre os mais altos do mundo, na casa de 440% ao ano, valor muito acima do praticado em mercados como o dos Estados Unidos. Economistas e representantes do setor atribuem isso a dois fatores: a baixa recuperação de crédito e a avaliação insuficiente da capacidade de pagamento dos clientes.
Inadimplência cresce entre clientes de neobancos
Estudos recentes indicam piora na qualidade da carteira das instituições digitais. A parcela de inadimplentes entre os clientes de cartões de neobancos, como Nubank, Mercado Pago, PicPay e PagSeguro, subiu de forma relevante nos últimos anos, enquanto nos bancos tradicionais houve queda.
A explicação envolve uma combinação de fatores: público mais vulnerável, juros elevados e crescimento muito rápido da oferta de crédito.
O que está sendo feito
O Banco Central estuda medidas para enfrentar o problema, e o governo relançou programas de renegociação de dívidas. Para quem já está pressionado pelas parcelas, porém, o alívio imediato ainda é limitado. O tema ganhou peso na discussão pública em um período que antecede as eleições.
Como se proteger
Enquanto as medidas não chegam, alguns cuidados ajudam a evitar que o crédito vire bola de neve:
- Não confunda limite com renda. Um limite alto no cartão não significa que a conta cabe no seu orçamento.
- Fuja do rotativo. Se não der para pagar a fatura inteira, compare alternativas mais baratas, como parcelamento da fatura ou renegociação.
- Compare o custo total. Olhe o Custo Efetivo Total (CET) e não apenas a parcela.
- Renegocie cedo. Procure o credor ao primeiro sinal de aperto, antes de a dívida crescer.
O crédito digital democratizou o acesso, mas sem análise adequada de risco e com juros altos ele pode agravar o endividamento. A resposta passa por regras mais claras, mas também por consumidores atentos ao que contratam.



