Margem de 45% no consignado INSS: quem sai na frente

Margem do consignado INSS volta a 45%: o que muda e quem larga na frente na disputa por aposentados

Aposentados e pensionistas do INSS voltam a ter 45% do benefício disponível para crédito consignado. O teto tinha caído para 40% por causa da Medida Provisória 1.355/2026, e a volta ao patamar anterior recolocou bancos e fintechs numa competição acirrada por esse público.

Na prática, o ganho é menor do que parece

O número de 45% engana um pouco. Segundo relatório do BTG Pactual, a margem voltou a ser fatiada em três partes:

  • 35% para o empréstimo consignado tradicional;
  • 5% para o cartão de crédito consignado;
  • 5% para o cartão de benefício.

Como o Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu a contratação de novas operações nos cartões, o limite do empréstimo pessoal, principal produto do setor, continua em 35%. Os outros 10 pontos existem no papel, mas ainda não podem ser usados.

Mesmo assim, o mercado recebeu bem a mudança. O relatório do BTG destaca a reação do Agibank, que viu no fim da MP um fator positivo, com potencial de ampliar a capacidade de concessão no produto que mais pesa no seu negócio.

Por que o INSS atrai tanto as instituições

Para a advogada previdenciária Adriana Faria, a concorrência tende a crescer porque o aposentado tem renda previsível e a parcela é descontada direto do benefício, o que reduz o risco de calote.

A primeira batalha é pelos contratos que já existem

Os especialistas concordam que o primeiro movimento não será de dinheiro novo, e sim de troca de banco e renegociação de dívidas em andamento.

Adriana espera campanhas de portabilidade, redução de juros, refinanciamentos e ofertas com liberação de valor extra. Ela também prevê mais ofertas por aplicativos e mensagens direcionadas a quem tem margem livre. Para o consumidor, diz, a portabilidade só vale a pena se reduzir de fato o custo da dívida.

David Camacho, CIO da HeadInvest Asset Management, tem leitura parecida. Para ele, a taxa menor é o atrativo mais visível, mas o que pesa para um público com boa parte da renda já comprometida é uma portabilidade sem burocracia e um refinanciamento que devolva algum dinheiro ao cliente. Segundo ele, a disputa por margem realmente nova só esquenta quando o TCU liberar os cartões, e não há data para isso.

Ricardo Hiraki, CEO da Plano Fintech, argumenta que boa parte da margem recém-liberada já está ocupada por contratos antigos, com juros mais altos. Convencer o aposentado a trocar uma dívida cara por uma mais barata é mais fácil do que fazê-lo assumir uma parcela nova.

O advogado Ubiratã Dias faz um alerta: os cinco pontos extras nem sempre significam dinheiro novo no bolso do beneficiário. Em muitos casos, servirão para reorganizar uma dívida que já existe.

Quem tende a sair na frente

Os especialistas veem dois grupos competindo:

  1. Bancos com grande base de aposentados, que já têm o cliente cadastrado e gastam menos para conquistá-lo. Hiraki cita Banco do Brasil e Caixa. Adriana inclui Bradesco, Itaú e Santander, além de nomes tradicionais do consignado como BMG, Pan e Agibank.
  2. Fintechs e operações digitais, que apostam na rapidez da contratação e da análise, no atendimento pelo celular e em taxas competitivas. Hiraki aponta C6 Consig, Banco Pan, Inter, meutudo e Konsi como candidatos a se destacar.

Camacho acredita que o tamanho do balanço deixou de ser o fator decisivo. Neste momento, quem leva vantagem é quem tem custo baixo para captar clientes (o que hoje depende de estrutura digital), agilidade em portabilidade e recompra de contratos, e disciplina para não competir só por preço com um público de renda apertada.

Os riscos

O desconto em folha funciona como freio natural ao afrouxamento de critérios, já que o consignado tem inadimplência menor que outras linhas de crédito pessoal. A suspensão dos cartões pelo TCU também segura o endividamento no curto prazo, ao tirar 10 pontos percentuais da conta.

O risco que preocupa Hiraki é outro: várias instituições podem disputar a mesma margem ao mesmo tempo, e o aposentado acabar fechando contratos simultâneos que, somados, comprometem mais do que ele consegue pagar, mesmo respeitando o limite legal. Para ele, esse é o ponto que merece mais atenção do setor do que a inadimplência formal, que deve continuar controlada.

O que diz o Banco do Brasil

O BB informou que segue oferecendo crédito a beneficiários do INSS dentro da legislação vigente. Segundo o banco, quem contrata ou renova o consignado pode ter prazo de até 108 meses e carência de até 59 dias. A instituição se apresenta como líder do consignado no sistema financeiro e diz ter liberado mais de R$ 8,3 bilhões em consignado do INSS para 372 mil clientes só no primeiro semestre de 2026.

Vale a pena mudar de banco?

Com a enxurrada de ofertas que deve chegar, o aposentado deve comparar propostas antes de fechar qualquer contrato. Trocar de banco só compensa se o custo total da dívida cair. Também vale checar quanto da margem já está comprometido e evitar contratos simultâneos em instituições diferentes.

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